A interminável noite chegou ao fim. O pequeno-almoço em breve estaria a caminho.
Eu já não conseguia aguentar mais a fome, penso que cheguei a ter alucinações ou então a sr.ª do lado levou, mesmo, a noite toda a ressonar.
Chegou o meu pequeno-almoço favorito. Café com leite e pão com manteiga. O néctar dos Deuses.
Estava na hora de levantar da cama, pela primeira vez, depois da operação. Um banho, bem bom, esperava por mim.
Mas naquele banho encontrei um campo de batalha, constituído por mulheres com super poderes.
Na casa de banho, apesar de os chuveiros serem individuais, antes de entrar e quando saiamos, dos chuveiros, ficávamos nuas, perto umas das outras. O que vi não vou esquecer, nunca mais.
Sempre que puder vou gritar aos quatros ventos, o que é o cancro e vou contar cada pormenor de tudo o que senti, vi e vivi. Porque devem vocês pensar! Porque nos humanos só cometemos erros, fazemos o que está errado e com orgulho dizemos, mas eu não quero viver para sempre ou melhor não quero morrer saudável. Sabem que mais, eu quero viver para sempre e quero morrer saudável, com trezentos anos de idade.
Só diz essas barbaridades quem nunca sentiu a morte bem de perto. Ou quem nunca viu, numa casa de banho feminina, onde a beleza deveria ser exposta sem pudor e sem vergonha, mulheres e miúdas, muitas na casa dos 20/30, mutiladas e envergonhadas, a tentar esconder o corpo. Com um olhar triste, como quem começou a guerra e já quer voltar para casa. O peso que carregam nos ombros é enorme, a responsabilidade de se manterem vivas, a felicidade de estarem vivas e o desgosto de não se sentirem sensuais e desejadas é impossivel descrever.
A verdade é que muitas delas, estavam curadas, sem peito, garganta, baço, fígado, apenas com algumas cicatrizes na pele, mas curadas “fisicamente” curadas.
Mas bem lá no fundo sabem o que eu vi? Na casa de banho do IPO eu vi mulheres bem bonitas, com cicatrizes sensuais, que fora dali, poderiam ser símbolo de uma revolta humanista ou femininista, uma vida de cowboys, de armas e facas de rixas e aventuras.
Para quem ficou sem peito, aproveitem a oportunidade e coloquem um peito bem bonito, de dar inveja ao mundo, para quem prefere ficar sem ele, em vez de se esconderem do mundo, choquem-no, mostrem aos mundo que nos somos imortais e estamos a sobreviver á maior guerra do século, o cancro.
Eu apesar de não puder apanhar sol, nunca mais, sempre que puder vou expor as minhas cicatrizes e sempre que me perguntarem porque as tenho, eu vou dizer que combati numa guerra dolorosa, onde as armas eram bisturis, vou mostra-las com orgulho, porque sempre que alguém as ver significa que estou viva e cada dia que passa eu ganho mais um dia.
Fora do IPO as nossas cicatrizes podem ser tudo aquilo que nos quisermos. E acreditem que podem ser bem sensuais e desejáveis.
terça-feira, 9 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Lucy Rambo - Part 1
Já terminou? Mas...não me doi as costas, nem a axila e já terminou?
Isto deve ser a anestesia geral eu estou a sonhar... só pode.
Este pensamento surgiu em fração de segundos. Rapidamente começei a sentir um calor enorme, uma vontade enorme de vomitar e uma dor na garganta insuportável.
Lentamente, joquei as maõs á garganta, pensei que se tinham enganado e me tinham operado no sitio errado. Ainda não tinha chegado com a mão á garganta o enfermeiro olhou para mim e disse, " Não se preocupe, doi-lhe a garganta de ser entubada eu já sei que está com calor vou já desligar o cobertor e não se preocupe que a nausea vai passar num minuto." Mais uma vez pensei que estava a sonhar, como é que ele sabia aquilo tudo se eu nem tinha falado. Deve ter um enfermeiro com poderes psiquicos, deve ser um anjo.
Num minuto a anestesista veio ter comigo, meiga como sempre, faz-me uma festa na cara e diz. " a menina tem muito mau acordar, quando a tiramos da anestesia deu-me uma estalada daquelas. Bateu nos médicos, nos enfermeiros e tivemos que chamar o maior enfermeiro que temos para a conseguir segurar...", lá atrás o enfermeiro anjo, num gesto tentou exemplificar o tamanho do enfermeiro que me segurou. Por segundo fiquei orgulhosa de mim mesma... assim é que é... Eu disse-vos que tinha batido em alguem e por sinal não foi só numa pessoa, era um gang com facas na mão e eu dei conta deles.
Só é pena eu não me lembrar de nada disso, teria sido o momento mais hilariante da minha visita ao IPO.
Uma hora passou, e eu estava acompanhada da minha batida cardiaca, aquele som lindo de um coração a bater normal, calmo e compassado, informaram-me que me iam levar de volta para o quarto, para eu puder ver a minha familia.
Nestes primeiros momentos lembro-me de pouca coisa, não me lembro de quem me levou de volta, não me lembro de subir o elevador, só me lembro de estar no quarto e ver o meu namorado. Lembro-me do que lhe disse ... "Liga á Beky e diz que não tive sonhos eroticos." De resto lembro-me de pouca coisa.
Dormi, dormi, dormi, e quando acordei, pensando eu que seriam umas sete da manhã, e que o pequeno almoço estava a chegar, entra o enfermeiro do turno da meia noite. Afinal só tinham passado 5 horas, a noite ainda estava a começar e eu já tinha o rabo e os braços dormentes. A única coisa boa sem dúvida era o tramal... Tramal:1 Dores:0.
Foi a noite mais longa da minha vida...
Isto deve ser a anestesia geral eu estou a sonhar... só pode.
Este pensamento surgiu em fração de segundos. Rapidamente começei a sentir um calor enorme, uma vontade enorme de vomitar e uma dor na garganta insuportável.
Lentamente, joquei as maõs á garganta, pensei que se tinham enganado e me tinham operado no sitio errado. Ainda não tinha chegado com a mão á garganta o enfermeiro olhou para mim e disse, " Não se preocupe, doi-lhe a garganta de ser entubada eu já sei que está com calor vou já desligar o cobertor e não se preocupe que a nausea vai passar num minuto." Mais uma vez pensei que estava a sonhar, como é que ele sabia aquilo tudo se eu nem tinha falado. Deve ter um enfermeiro com poderes psiquicos, deve ser um anjo.
Num minuto a anestesista veio ter comigo, meiga como sempre, faz-me uma festa na cara e diz. " a menina tem muito mau acordar, quando a tiramos da anestesia deu-me uma estalada daquelas. Bateu nos médicos, nos enfermeiros e tivemos que chamar o maior enfermeiro que temos para a conseguir segurar...", lá atrás o enfermeiro anjo, num gesto tentou exemplificar o tamanho do enfermeiro que me segurou. Por segundo fiquei orgulhosa de mim mesma... assim é que é... Eu disse-vos que tinha batido em alguem e por sinal não foi só numa pessoa, era um gang com facas na mão e eu dei conta deles.
Só é pena eu não me lembrar de nada disso, teria sido o momento mais hilariante da minha visita ao IPO.
Uma hora passou, e eu estava acompanhada da minha batida cardiaca, aquele som lindo de um coração a bater normal, calmo e compassado, informaram-me que me iam levar de volta para o quarto, para eu puder ver a minha familia.
Nestes primeiros momentos lembro-me de pouca coisa, não me lembro de quem me levou de volta, não me lembro de subir o elevador, só me lembro de estar no quarto e ver o meu namorado. Lembro-me do que lhe disse ... "Liga á Beky e diz que não tive sonhos eroticos." De resto lembro-me de pouca coisa.
Dormi, dormi, dormi, e quando acordei, pensando eu que seriam umas sete da manhã, e que o pequeno almoço estava a chegar, entra o enfermeiro do turno da meia noite. Afinal só tinham passado 5 horas, a noite ainda estava a começar e eu já tinha o rabo e os braços dormentes. A única coisa boa sem dúvida era o tramal... Tramal:1 Dores:0.
Foi a noite mais longa da minha vida...
segunda-feira, 1 de março de 2010
O momento da verdade...
Deitada na maca e a caminho do 2º piso, lá estava eu acompanhada por duas simpáticas enfermeiras.
A cada segundo que o elevador levava a descer começei a sentir-me um pouco nervosa, como asmática que sou a minha respiração começou a ficar dificil, as enfermeiras deram conta e começaram a respirar fundo comigo. Com muita calma e muita simpatia, fizeram tudo para eu me controlar e voltar ao meu estado de calmaria. Não podia ficar com falta de ar ou então não poderia ser operada, e isso estava fora de questão, eu queria e tinha mesmo que ser operada nesse dia.
Levaram-me para uma sala para me preparar. Outra enfermeira veio e informou-me que ia buscar o soro para me colocar, quando o inesperado acontece, uma criança de mais ou menos um ano de idade entra de urgência no bloco. Um enfermeiro veio informar que teriam que preparar o menino para a cirurgia. Uma criança linda, inocente, completamente carequinha,da quimio, e com carinha de quem estava cansado de viver. Ao longo de toda esta minha caminhada nada me fez doer mais o coração que esta criança. E o sofrimento daquela mãe agarrada ao filho, a chorar em silêncio, para o menino não perceber.
Se em algum momento duvidei que existisse algum Deus, seja ele qual for, foi nesse momento.
A enfermeira veio me informar que tinham uma urgência e que eu tinha que esperar mais um pouco.Ela percebeu que estava nervosa ao ver aquela criança e aquele sofrimento, ficou ali do meu lado, a falar e tudo e mais alguma coisa para me distrair.
Nesse momento em que me sentia incrédula, apesar de todas as vezes e pessoas que me dzeram que Deus estaria comigo, tentei com toda a força voltar a acreditar em alguma coisa e não conseguia, foi então que pensei, numa coisa muita sábia que tenho vindo a acreditar cada vez mais, que todos nos somos Deus, e foi então que se fez luz.
No meio da conversa da enfermeira, que eu nem estava a ouvir, eu pensei em todas as pessoas que eu sabia que estavam a pensar em mim naquele momento. Não digo isto por cortesia, digo porque é mesmo verdade, eu senti a mão de todos os meus amigos e familia a tocar-me, lembrei de todas as palavras doces que todos me disseram. Na minha cabeça eu entendi o quanto era importante para cada um deles. Senti um calor magnifico, uma calma que não sei explicar, quando de repente sinto uma mão fria a tocar-me e a dizer " não acredito vai ser operada e estava a dormir, muito bem é dessa calma que precisamos". Era a anestesista e a enfermeira que me vinha colocar o soro. Estava na hora.
Pois é eu não sei se realmente adormeci ou não mas sei sim que os meus amigos e familia estavam todos do meu lado, eu senti, senti mesmo. E agradeço-vos a todos por isso. Enquanto pensavam em mim eu senti-vos, voçês foram o meu Deus, a minha força e estiveram sempre comigo.
Entrei no bloco operatório, que gelo, parecia que estava no polo norte. Mudaram-me para maca onde me iriam operar. E a anestesista começou o seu trabalho.
Perguntou-me a idade, se tinha filhos, eu disse-lhe que não tinha e não queria ter por enquanto, porque queria viajar, ao que ela responde "então agora vai fazer uma viagem". Quando lhe vou responder, ouço alguem dizer, " lucy tenha calma a sua operação terminou e correu tudo bem"... O quê? terminou? já? mas eu tinha ainda que responder á anestesista eu até tinha ainda coisas para lhe perguntar... Eu penso que este foi o motivo pelo qual agora quero dizer tudo a toda a gente, detestei ter ficado com coisas por dizer.
" Isto uma viagem, porque? Vou sonhar durante a anestesia, vou imaginar que estou noutro sitio, vai ser divertido? Vou ver o tunel, a luz, vou-me imaginar fora do meu corpo e ver a operação?"
Era tudo isto que eu queria dizer á anestesista e quando ia dizer já sabia as respostas todas. Não vi nada, não viajei nada, foi uma ausência total, foram duas horas de nada, branco, vazio. Se ela sabia isso, porque é que me disse que eu ia fazer uma viagem, o que será que ela sabe e eu não, que viagem foi essa que não me lembro de nada?
... Agora sei que ela tinha razão, foi mesmo uma viagem, depois eu conto-vos...
A cada segundo que o elevador levava a descer começei a sentir-me um pouco nervosa, como asmática que sou a minha respiração começou a ficar dificil, as enfermeiras deram conta e começaram a respirar fundo comigo. Com muita calma e muita simpatia, fizeram tudo para eu me controlar e voltar ao meu estado de calmaria. Não podia ficar com falta de ar ou então não poderia ser operada, e isso estava fora de questão, eu queria e tinha mesmo que ser operada nesse dia.
Levaram-me para uma sala para me preparar. Outra enfermeira veio e informou-me que ia buscar o soro para me colocar, quando o inesperado acontece, uma criança de mais ou menos um ano de idade entra de urgência no bloco. Um enfermeiro veio informar que teriam que preparar o menino para a cirurgia. Uma criança linda, inocente, completamente carequinha,da quimio, e com carinha de quem estava cansado de viver. Ao longo de toda esta minha caminhada nada me fez doer mais o coração que esta criança. E o sofrimento daquela mãe agarrada ao filho, a chorar em silêncio, para o menino não perceber.
Se em algum momento duvidei que existisse algum Deus, seja ele qual for, foi nesse momento.
A enfermeira veio me informar que tinham uma urgência e que eu tinha que esperar mais um pouco.Ela percebeu que estava nervosa ao ver aquela criança e aquele sofrimento, ficou ali do meu lado, a falar e tudo e mais alguma coisa para me distrair.
Nesse momento em que me sentia incrédula, apesar de todas as vezes e pessoas que me dzeram que Deus estaria comigo, tentei com toda a força voltar a acreditar em alguma coisa e não conseguia, foi então que pensei, numa coisa muita sábia que tenho vindo a acreditar cada vez mais, que todos nos somos Deus, e foi então que se fez luz.
No meio da conversa da enfermeira, que eu nem estava a ouvir, eu pensei em todas as pessoas que eu sabia que estavam a pensar em mim naquele momento. Não digo isto por cortesia, digo porque é mesmo verdade, eu senti a mão de todos os meus amigos e familia a tocar-me, lembrei de todas as palavras doces que todos me disseram. Na minha cabeça eu entendi o quanto era importante para cada um deles. Senti um calor magnifico, uma calma que não sei explicar, quando de repente sinto uma mão fria a tocar-me e a dizer " não acredito vai ser operada e estava a dormir, muito bem é dessa calma que precisamos". Era a anestesista e a enfermeira que me vinha colocar o soro. Estava na hora.
Pois é eu não sei se realmente adormeci ou não mas sei sim que os meus amigos e familia estavam todos do meu lado, eu senti, senti mesmo. E agradeço-vos a todos por isso. Enquanto pensavam em mim eu senti-vos, voçês foram o meu Deus, a minha força e estiveram sempre comigo.
Entrei no bloco operatório, que gelo, parecia que estava no polo norte. Mudaram-me para maca onde me iriam operar. E a anestesista começou o seu trabalho.
Perguntou-me a idade, se tinha filhos, eu disse-lhe que não tinha e não queria ter por enquanto, porque queria viajar, ao que ela responde "então agora vai fazer uma viagem". Quando lhe vou responder, ouço alguem dizer, " lucy tenha calma a sua operação terminou e correu tudo bem"... O quê? terminou? já? mas eu tinha ainda que responder á anestesista eu até tinha ainda coisas para lhe perguntar... Eu penso que este foi o motivo pelo qual agora quero dizer tudo a toda a gente, detestei ter ficado com coisas por dizer.
" Isto uma viagem, porque? Vou sonhar durante a anestesia, vou imaginar que estou noutro sitio, vai ser divertido? Vou ver o tunel, a luz, vou-me imaginar fora do meu corpo e ver a operação?"
Era tudo isto que eu queria dizer á anestesista e quando ia dizer já sabia as respostas todas. Não vi nada, não viajei nada, foi uma ausência total, foram duas horas de nada, branco, vazio. Se ela sabia isso, porque é que me disse que eu ia fazer uma viagem, o que será que ela sabe e eu não, que viagem foi essa que não me lembro de nada?
... Agora sei que ela tinha razão, foi mesmo uma viagem, depois eu conto-vos...
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