quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A viagem começou...

De volta ao internamento. Parecia que estava num hotel 5 estrelas.
Não é que o aspecto do IPO seja o de um hotel 5 estrelas, mas o atendimento sem dúvida que é.
Enquanto desocupavam uma cama para eu me instalar, uma enfermeira veio falar comigo e perguntar-me algumas coisas que, naquele momento, me pareceram absurdas.
Das quais posso destacar uma que me pareceu “muito estranha”… Se acreditava em DEUS e qual era a minha religião. Não sabia que tinha que me confessar antes de ser operada. Depois pensei, será que só operam católicos?
Em caso de urgência quem queria que eles contactassem primeiro e quem poderia avisar os restantes familiares.
Qual a minha comida favorita e a lista do que comia a cada refeição.
Melhor que um hotel 5 estrelas. Mas a dúvida na minha cabeça permanecia, porque queriam eles saber tudo aquilo?
Depois de um internamento no IPO, entendi o porque daquelas questões.
Eu estava ali para a minha primeira cirurgia, a serio. O resultado daquela cirurgia poderia mudar o rumo da minha vida.
E como é claro nesse dia eu tinha todas as esperanças do mundo, como tal lembrava-me de tudo o que mais gostava e daquilo em que acreditava.
Mas as perguntas deles são a pensar no futuro, naquelas pessoas que perdem a esperança, o cabelo, o apetite, a vontade de viver e a fé.
E quando isso acontece acredito que, nenhuma enfermeira, por mais doce que seja, consiga arrancar dos lábios de alguém, qual o seu prato favorito, a sua religião e, principalmente, quem deseja primeiro que seja informado da sua morta.
Enfim, uma nutricionista veio, também, falar comigo sobre alimentação e perguntar as minhas rotinas alimentares e trocamos algumas ideias.
Tal como já nós disse, mais á frente irei falar da alimentação e de outros cuidados que devemos ter. Uns conselhos de amiga fazem sempre bem. E quem sabe se vocês não seguirão alguns.
Não me consigo esquecer a fome que tinha naquele dia, não sabia ainda a que horas iria ser operada, mas, tinha ordens para a minha última refeição e bebida do dia ser às 9:00h da manhã.
Quem me conhece sabe bem como fico quando não como, pareço um bicho, nem sei como não bati em alguém, quer dizer até bati, mas isso conto-vos depois, um pouco de curiosidade faz sempre bem.
Eu que nem bebo muita água, tive sede o dia todo, incrível, o fruto proibido é mesmo o mais apetecido.
Não vos sei explicar porque, mas a partir da 13:00h comecei a ficar com sono e cheguei mesmo a adormecer.
Mais uma vez, incrível, eu que devia estar nervosa e a subir paredes estava tão calma que mal conseguia manter os meus olhos abertos.
Duas da tarde, a enfermeira veio informar-me que eu iria ser a primeira a ser operada e que estava marcada para 15:00h. Não! Nem ai me senti nervosa, deu-me ainda mais sono.
Três da tarde, tinha chegado a minha hora, mandaram-me despir a roupa toda, vestir uma bata descartável e deitar-me na cama.
Duas enfermeiras chegaram, despedi-me da minha família e a viagem começou.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Um filme de super Herois ou um exame médico...

Primeiro exame da manhã, não sei o nome, mas pelo que o médico me explicou, faz parte do exame ao ganglio sentinela. Iam me injectar um liquido radioactivo, á volta da minha cicatriz e verificar para que ganglio ele iria migrar. Isto porque? Cada zona do nosso organismo é protegido por um ganglio, como tal, se o meu melanona estivesse a drenar celulas cancerigenas, para o organismo, o ganglio que estava a proteger aquela parte da pele, iria assimilar essas celulas. Resultado, essas celulas iriam começar a espalhar-se pela linfa que por sua vez percorria o organismo e poderia instalar-se em qualquer orgão do corpo. Essas são as chamadas metasteses. Elas são a maior preocupação de qualquer tipo de cancro. Não sei se expliquei isto bem, mas foi assim que entendi.
A parte do radioactivo foi a que mais me emocionou, se bem me lembro, acho que foi assim que surgiu o homem aranha... eu já me estava a imaginar com o liquido a percorrer todas as minhas veias e eu vestida de latex, á espera de ouvir alguém, do outro lado do mundo, a gritar SOCORRO. Mas por outro lado sentinela... parecia-me mais do genero matrix... fiquei um pouco confusa entre o Keanu Reaves e o latex, mas ...O sonho acabou quando o enfermeiro me chamou e me começou a colar uns adessivos, á volta da cicatriz, pelo que entendi assim que tirou o adessivo ficou marcado tudo á volta.
A seguir, levaram-me para uma sala e uma sr.ª DR.ª não muito simpática (talvez a única pessoa no IPO que não é simpatica, tem que haver sempre uma ovelha negra), começou a injectar esse liquido em vários pontos, todos á volta da cicatriz, na zona que estava delimiada. Assim que terminou, uma menina, bem mais simpatica, colocou uma maquina estranha por cima de mim... bem mais estranha que a maquina da TAC e começamos a sessão de... onde está o Liquido... aquela maquina teria que fazer um scan ao meu corpo até descobrirem em que ganglio o liquido estava instalado. Procurou... procurou e ... lá estava ele, onde o médico prévia, debaixo da minha axila direita.
A medica voltou e examinou, com um instrumento que parecia um pendúlo de metal, e confirmou o local do ganglio, pegou numa caneta de acetado e marcou o local.
Se a minha mãe visse aquilo tinha batido na médica, a minha mãe sempre me avisou que pintar na pele com canetas fazia mal, eu estava ali por causa de um cancro de pele, e a dr.ª antipática ainda me vem pintar, com caneta de acetato (mais grave ainda)... pode parecer-vos parvo o que disse anteriormente, mas isto realmente passou-me pela cabeça, o sistema nervoso faz coisas que não entendemos. Eu ia ser operada, mas estava preocupada porque a médica me pintou com caneta de acetato!!!
Terminou esta etapa e eu estava de volta ao internamento.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Preparativos

Andei com o telemóvel atrás, para todo o lado, até para a casa de banho eu o levava, tudo porque a qualquer momento podiam ligar-me do IPO, a informar quando seria a operação.
Só houve um dia, um único dia, que me esqueci do telemóvel na secretária à hora de almoço, e advinham quando me ligaram, sim é verdade foi nesse dia, à hora de almoço.
Por sorte eu tinha dado o número do meu namorado e ligaram-lhe para a informar a data da operação.
Até foi bom ouvir por ele, deu para me manter mais calma, sim porque quando ele me disse, vais ser operada daqui uns dias, eu ia explodindo, as minhas orelhas ficaram tão a ferver, que quase me caíam.
Pois é mais uma etapa, mais preocupações, fazer a mala, não me esquecer de nada, arranjar pijama novo, robe decente, algumas cuecas ainda com os elásticos no sítio, não foi tarefa fácil não pensem.
Tudo pronto, mala feita e já rumo a Lisboa, nem sei o que senti, mas estranhamente estava muito calma, não me sentia triste, simplesmente me lembro de levar o caminho inteiro a remoer em memórias antigas. Coitado do meu namorado que teve que gramar algumas histórias de namorados antigos, daqueles a quem se dá só a mão, mas que nunca mais esquecemos, por ter sido tão ridículo.
Enfim, no meio disto tudo ouve algumas coisas boas, uma delas era o facto de termos casa em Lisboa a 20 minutos do IPO. Um apartamento pequeno, mas acolhedor, decorado pela minha sogra com todas as cores do arco-íris.
Tinha que dar entrada no IPO, no internamento, ás nove da manhã, por isso deitamos cedo, acham que dormi, como se costuma dizer passei pelas brasas.
O medo de morrer na mesa de operações era mais que muito. Eu fiquei tão assustada com o facto de ser anestesia geral, que no dia da operação nem pensei no cancro.
E não me venham com essa treta de qual medo de morrer, a morte não assusta nada e ainda, a mais vulgar frase, quem confia em Deus não tem medo de morrer. Treta… treta…treta… Só diz isso quem não sente a morte em frente de si, que não está doente, porque na hora da verdade, toda a gente por mais fé que tenha faz pactos com o Diabo para puder ficar vivo.
Acordei, tomei um banho decente, coisa que sabia que não conseguir nas próximas semanas e lá deixamos nos para trás o nosso cantinho cor de arco-íris e partimos em direcção ao IPO, directamente ao sexto piso.
O mais me caracterizava nessa manhã o meu sentido de humor. Quem via até pensava que eu estava felicíssima de ali estar.
Chegou a hora, um enfermeiro chegou lá fora, aos bancos da entrada, trazendo uma pasta na mão e pedindo me que o acompanhasse, mostrou-me onde poderia deixar a minha mala e pediu-me que me despachasse porque ainda tinha um exame para fazer antes da operação.
Felizmente deixaram o meu namorado e a mãe dele acompanhar-me.
Tivemos que sair do prédio principal e andamos ainda alguns metros até ao local do exame. Entramos, sentamos o enfermeiro entrou com o meu processo e quando saiu disse para esperar que chamassem o meu nome.
Não demorou nem dez minutos até me chamarem…

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

O expoente da Loucura

Lá estava eu. Mais aliviada e pronta para a batalha seguinte.
O passo a seguir era fazer todos os exames que o médico tinha pedido.
Analises ao sangue, raio x ao tórax, electrocardiograma e a TAC.
Os primeiros exames, fiz no IPO tudo no mesmo dia.
A TAC que era o exame que o médico tinha mais urgência foi o que demorou mais tempo.
A TAC é muito fácil de fazer, tirando o facto que temos que beber um litro de um líquido horroroso.
Depois de beber o liquido, deitamo-nos numa maca e a máquina vai passando lentamente á volta do nosso corpo. Temos que suster a respiração quando nos pedem, mas não é nada doloroso, aliás até é bem engraçado parece que estamos numa nave espacial e que ela está a levantar voo.
Foi pedido com urgência mas mesmo assim demorou uma semana e meia.
Essa semana foi um verdadeiro martírio, mais um… Eu sabia que estava a fazer a TAC para ver se tinha tumores em algum sítio do meu organismo.
Acreditem que se até então me tinha doido um coisinha aqui e outra ali, nessa semana foi de doidos, doeu-me tudo.
Não conseguia respirar fundo porque me doía, quando tocava no estômago e no fígado as dores eram mais que muitas, não podia fechar os braços porque sentia que os gânglios estavam inchados (o que era um mau sinal, gânglios inchados significava que o melanoma poderia estar a drenar células cancerígenas para o sistema linfático), tudo o que era gânglios me doía, eu apalpava o peito vezes sem conta, cada vez que ponha a mão sentia uma coisa diferente.
Eu ia dando em maluca, por momento senti até que tinha chegado á barreira da minha sanidade mental. Mais um passo uma dor e tinham que me internar no Júlio de Matos.
Os exames lá chegaram, quando peguei no relatório fiz me de todas as cores. Tinha um traço não sei de que no pulmão e qualquer coisa na vesícula.
Sabem o que me veio logo á cabeça não é… “pronto isto está espalhado pelo corpo e não me vou safar desta”… passado uns segundos lá me acalmei e pensei, e que tal se eu procurar estes nomes estranhos na Internet.
Por um lado eu sabia que era um risco, podia ser alguma coisa mortal e nesse caso eu não sei o que faria, mas de certo que iria arrancar para Lisboa, para o IPO, não sei bem fazer o quê mas lá logo pensava nisso. Por outro lado podia ser uma coisinha de nada e eu iria dormir um pouco mais descansada.
Lá optei por correr o risco e qual não é o meu espanto quando descubro que … afinal eu tinha umas pedritas na vesícula e um pouco do pulmão murcho isso porque devia ter algum brônquio obstruído e não deixava passar o oxigénio. Normal eu sou asmática tenho sempre os brônquios obstruídos.
Resultado, por momentos senti-me feliz por ser asmática e ter pedras na vesícula, que fantástico. Ambas as coisas tinham remédio a vesícula cuidados com a alimentação, cuidados esses que eu já estava a ter por causa do cancro (mais á frente irei falar-vos sobre isso) e fazer exercícios respiratórios para fazer o ar passar para a parte de pulmão que estava com dificuldades.
A minha mãe levou os exames ao médico, que depois de ver fez um sorriso e disse que estava tudo bem e que eu estava pronta para a segunda operação. Mais umas semanas e chamavam-me.
Já sei, estão curiosos para saber se eu continuei com dores em algum sítio, a resposta é não, claro que não, era só psicológico, mas ia-me levando á loucura.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Consulta no IPO Lisboa

No dia 21 de Dezembro, lá ia eu a caminho do IPO para a minha consulta de cirurgia de melanoma.
Até ao dia da consulta mantive-me calma, sentia me triste e sem esperança, mas tentava não pensar no assunto.
Mas ao atravessar a ponte Vasco da Gama, senti um aperto no Coração. Comecei a imaginar o que o médico me poderia dizer e como devem calcular tudo o que me vinha à cabeça era “ você tem mais uns meses de vida” ou “não podemos fazer mais nada por si”. Durante uns minutos senti que estava a ter um ataque de pânico em silêncio. Não queria de modo algum partilhar os meus pensamentos mórbidos com a minha família, que estava talvez tão em pânico como eu.
À medida que íamos chegando perto do IPO eu sentia o meu pensamento a acelerar e o meu coração abrandar, a minha sentença ia ser ditada.
Chegamos. Ao contrario do que eu pensava, na ala de consulta de cirurgia de melanoma, não vi ninguém com aspecto de doente, magros e sem cabelo, era simplesmente uma sala de espera normal com gente normal, que tal como eu, deviam apenas esperar um veredicto.
Calculo que todos eles estariam tão em pânico como eu, mas todos naquela sala estamos a sofrer em silencio, um silencio quase tão profundo como a doença que todos partilhávamos, um cancro, silencioso, sorrateiro, que aparece sem dores, sem tonturas, sem enjoos, sem sintomas, mas, que quando chega arrasa todas as nossas esperanças, crenças e futuro…
Lá ao fundo, passa um médico, alto, moreno na casa dos 30, entre piadas acerca da beleza do médico e o nervosismo, lá percebemos que aquela era o médico para o qual eu tinha consulta.
Era chegada a hora, o médico mandou entrar, não pensei em mais nada, nem bom nem mau, estava a guardar as forças escutar a minha sentença.
Pois é afinal, o medo era tanto que só no final da consulta cheguei à conclusão que ouve muitas palavras que o médico não uso, tais como quimioterapia, radioterapia, morrer, nada feito, alias tudo o que o médico me disse era positivo e cheio de esperança.
Ele começou por me explicar o tipo de melanoma que eu tinha. Disse-me que o passo que teríamos que seguir, era efectuar um alargamento das margens à volta da minha última cirurgia e retirar um gânglio, possivelmente debaixo da axila, para enviar para analise,. Eles chamam de gânglio sentinela, no meu caso ia ser feito o melanoma tinha mais que 1mm.
E pronto este era o veredicto, uma nova cirurgia, desta vez mais profunda e com anestesia geral. Mais uma preocupação para mim, anestesia geral… enfim… mais uma experiência….

Ouve algo muito importante que o médico disse " cada caso é um caso" e acreditar é meio caminho para a cura... Não me esqueçerei nunca...